terça-feira, 1 de agosto de 2017

Da terra ao Céu:
do Saumur da pedra ao Saumur do sonho

Um belo castelo inspirou um sonho.
Hoje os restauradores querem consertar Saumur segundo o sonho
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O castelo Saumur como está representado nas “Très Riches Heures du duc de Berry” nunca existiu como é representado na maravilhosa iluminura.

O castelo histórico, embora muito belo, foi abandonado nos tempos modernos, período que medeia entre a Idade Média e a Revolução Francesa.

Pode-se entrementes indagar se a iluminura das “Très Riches Heures du duc de Berry” é “autêntica”, ou seja, se ela reproduz o que foi o castelo.

E aqui o julgamento deve ser cuidadoso. Houve o castelo de pedra historicamente existente e houve também na alma dos homens um sonho construído a partir desse mesmo castelo.

Saumur foi um dos mais belos castelos da Idade Média e um daqueles em que melhor se exprimiu o sonho para o qual tendia a Idade Média.

O Saumur de pedra é um exemplo de “castelo típico” com seus muros, torres, ameias, ponte levadiça, etc. E também é um exemplo do sonho de “castelo arquetípico”, quer dizer, um voo da alma humana que toma uma realidade material como pista de decolagem.

Pode-se perguntar do que vale algo que nunca existiu, como esse “castelo arquetípico”? Porque – pode alguém objetar – ele não muda nada na vida concreta dos homens.

A agulha do Mont Saint-Michel foi irrealizável na Idade Média.
No século XIX foi feita segundo o sonho de uma iluminura.
Pode-se dar uma resposta filosófica. Mas há também uma resposta que está sendo dada em nossos dias, e em termos também muito concretos.

Porque Saumur está sendo restaurado de acordo com o “castelo arquetípico”.

Não é o primeiro caso.

A célebre agulha do Mont Saint-Michel, coroada por uma artística estátua do Arcanjo folheada a ouro, também nasceu numa iluminura.

Ela não existiu na Idade Média.

No século XIX, quando a tecnologia começou a permitir a montagem da colossal agulha com a estátua proporcionada de São Miguel, na hora da restauração, o genial Viollet-le-Duc, responsável pelas obras, mandou fazer a agulha dos sonhos.

Foi uma tempestade polêmica: restaurar uma coisa que nunca existiu?

Viollet-le-Duc não arredou o pé e hoje milhões e milhões de pessoas vão visitar a “merveille” presidida pelo Arcanjo de ouro, a uma grande altitude.

Na iluminura, Saumur dá uma impressão de tanta majestade, ao mesmo tempo de tanta graça, de tanta leveza, que se tem a impressão de estar diante de um castelo de conto de fadas, e não de uma construção destinada também ao uso militar!

A majestade do castelo se expressa na sua grande altura. Habitualmente os castelos não têm essa elevação. Os alicerces do castelo habitualmente são disfarçados por muralhas e enterrados no chão.

O Saumur do sonho que aponta ao Céu.
O Saumur do sonho que aponta ao Céu.
Mas o castelo parece não ter alicerces e estar colocado como um enfeite diretamente sobre o solo.

Três torres, toda espécie de chaminés e de torreõezinhos se levantam para o céu. As torres mais altas competem entre si para ver qual se levanta mais e arrastam atrás de si todas as chaminés e os torreõezinhos.

Dir-se-ia que de um momento para outro, o castelo levanta voo, de tal maneira ele é ligeiro. Um certo desejo aeronáutico está presente no castelo, mas sem os prosaísmos do avião de hoje.

O Saumur é delicado em todas as coisas. No alto das torres há flechas de metal e, no topo delas, flores-de-lis douradas.

Num dia bonito de sol, a gente vê rebrilhar todos esses ouros, e se faz uma ideia de coisa angélica, de Céu realizado na Terra, que é uma verdadeira audácia!

O Saumur de pedra está sendo restaurado
para parecer com o sonho
E é essa fantasia que está sendo criada materialmente, ou recriada no momento presente.

O castelo não tem uma linha fixa. Tudo se faz em curvas, com uma espécie de irregularidade.

Ele é feito de mil pontas.

Aqui, dois torreõezinhos com pontas para cima, lá, janelas góticas com agulhas de um lado e do outro.

No topo, florões para cima. Uma torre culmina numa espécie de terraço com ameias.

O teto com cores de ardósia vai para cima, acompanhado pelas chaminés.

O castelo fala de uma saudade do Céu, de uma vontade de entrar dentro do azul, de alhear-se das coisas da terra e de se perder numa contemplação elevadíssima.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 27.11.1970 não revistos pelo autor).


continua no próximo post: Admirar Saumur e entrar no olhar de São Luiz



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Um comentário:

  1. Joana Benedita de Lima Moraes3 de agosto de 2017 17:22

    Que encanto este castelo. E sua história? Maravilhosa!!!

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