terça-feira, 12 de setembro de 2017

Pierrefonds: o triunfo do verdadeiro progresso sobre a esclerose arqueológica

Pierrefonds uma restauração que foi um progresso na linha medieval
Uma restauração que foi um progresso na linha medieval
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O Castelo de Pierrefonds é um imponente palácio fortificado, situado no bordo sudeste da Floresta de Compiègne, a norte de Paris, no departamento de Oise.

Ele apresenta a maior parte das características defensivas da Idade Média.

No século XII, já se elevava um castelo no lugar dito de "le Rocher" de Pierrefonds (O Rochedo de Pierrefonds).

Em 1392, o Rei Carlos VI dá-lo a seu irmão Luís de Valois, Duque de Orléans.

Este último oferece o castelo original às Irmãs do Santo Suplício e, de 1393 à sua morte em 1407, faz construir um novo edifício pelo arquiteto da Corte, Jean le Noir, na localização atual.

No reinado de Luis XIII, o castelo ficou na propriedade de François-Annibal d'Estrées que se engajou numa rebelião do "Partido dos Descontentes".

O palácio acabou sendo invadido pelas tropas do Cardeal Richelieu, Secretário de Estado da Guerra.

Pierrefonds sala dos Heróis
Pierrefonds: a sala dos Heróis
A ordem foi desmantela-lo, mas era tão grande que a tarefa não foi completada.

As fortificações exteriores foram arrasadas, as caras destruídas e foram praticadas sangrias nas torres e nas muralhas.

O palácio ficou em ruínas durante dois séculos.

Ao longo do século XIX, houve uma redescoberta da arquitetura da Idade Média.

Napoleão III mandou em 1857 o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc empreender o seu restauro.

O restauro devia limitar-se a uma simples recuperação das partes habitáveis conservando as ruínas "pitorescas" como decoração.

Porém, o desejo social e cultural de recuperar essa joia medieval, levou o passageiro imperador a mandar fazer uma residência imperial.

Os trabalhos de reconstrução foram empreendidos com ardor por Viollet-le-Duc até sua morte.

Viollet-le-Duc foi além da mera recuperação histórica. Embora imensamente erudito, ele fez mais um palácio de fábula imaginando como terá sido sem se basear estritamente na história do edifício.

Reconhece-se na arquitetura exterior recuperada, os excelentes conhecimentos que tinha da arte do século XIV.

O genial restaurador cuidou do parque como e das fortificações, dando livre curso à sua inspiração muito pessoal, e sendo muito criticado pelos rigoristas amantes de velhos papéis.

Pierrefonds vista aérea
Pierrefonds: vista aérea
Viollet-le-Duc fez de Pierrefonds uma de suas mais amadas e triunfantes realizações. Após sua morte antes do fim das obras, seu estilo foi preservado até terminar a construção.

O castelo nunca voltou a ser habitado.

Os detratores reprovaram a reinvenção de uma arquitetura neo-medieval, mas ficaram vencidos pelo feliz resultado.

Viollet-le-Duc fez mostra nesta reconstrução de um extraordinário sentido de elevação e de volumetria e de uma incontestável sensibilidade do local, de um conhecimento do espírito medieval em sua glória.

Ele venceu um espírito meramente arqueológico e, como os medievais outrora, aproveitou a reconstrução para dar uma passo para frente no sentido da tradição, do requinte e da perfeição.




Vídeo: Pierrefonds, um castelo e seu sonho








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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Roquetaillade: 700 anos na posse de uma mesma família

Entre guerras e reformas o castelo ficou sempre com uma mesma continuidade familiar
Entre guerras e reformas o castelo ficou sempre com uma mesma continuidade familiar
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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O castelo de Roquetaillade fica em Mazères, na região da Gironda França. É constituído por duas fortificações, uma do século XI e outra do século XIV, uma perto da outra num mesmo recinto.

O palácio foi salvo no século XIX pela restauração de Viollet-le-Duc, que empreendeu igualmente importantes trabalhos de decoração e criação de mobiliário.

Roquetaillade encontra-se há 700 anos na posse de uma mesma família e foi aberto ao público em 1956.

O lugar foi habitado desde a pré-história. Grutas naturais e um pico rochoso eram favoráveis a uma instalação humana. Os numerosos “S” talhados, encontrados no lugar, testemunham essa presença.

No entanto, a menção a uma fortificação em Roquetaillade só surge pela primeira vez em 778.

Nessa data, Carlos Magno, a caminho dos Pirenéus com o seu sobrinho Rolando (o qual inspiraria a célebre La chanson de Roland, poema épico do século XI), reagrupou o seu exército em Roquetaillade.

E ali construiu com madeira uma fortificação que fazia lembrar os castros romanos. Foi o primeiro castelo de Roquetaillade. Uma construção por certo primária e transitória que deu a partida a reconstruções que chegaram até nossos dias.

Essa construção evoluiu ao longo dos tempos, tendo a técnica da pedra substituído a da madeira.

Roquetaillade cresceu incluindo novas torres, muralhas e outras construções defensivas.

Roquetaillade, Grade Salão do castelo, aquarela de 1848.
Roquetaillade, Grade Salão do castelo, aquarela de 1848.
A última construção foi a torre-porta, em 1305, única passagem entre o coração do castelo e a aldeia, chamada Castelnau, que se estabeleceu sob sua sombra protetora.

Não há dados dos senhores de Roquetaillade anteriores ao século XI, no qual aparece nos arquivos o nome La Mota (ou La Mothe).

A única certeza é que o castelo permanece propriedade da mesma família, do século XI até os nossos dias.

Em 1306, o Cardeal de la Mothe, sobrinho do Papa Clemente V, construiu uma segunda fortaleza em Roquetaillade. É o chamado: o “Château Neuf” (Castelo Novo).

Sua planta é quadrada, tem cinco torres, além de uma torre de menagem [estrutura central de um castelo medieval]. Esta construção aliava a arte militar e a necessidade de defesa, ao conforto.

Assim, Roquetaillade, como outros palácios do fim da Idade Média, foi dos primeiros exemplos de palácio/castelo-forte em França.

A Guerra dos Cem Anos poupou totalmente o castelo. Aliás, nessa época os senhores de Roquetaillade eram principalmente eclesiásticos, não envolvidos nesse conflito.

Tampouco as guerras de religião promovidas pelos protestantes calvinistas fizeram muito dano à região da Gironda. Somente a pequena comuna de Villandraut foi atacada pelos protestantes, que viam nela um símbolo papal.

Foi bem diferente com a Revolução Francesa. Movidos pelo ódio igualitário contrário à nobreza, bandos revolucionários democráticos de Bordeaux se dirigiram a Roquetaillade para demoli-lo.

O Marquês de Lansac mostrou então como a nobreza sabia interpretar a psicologia de todos, inclusive desses bandidos ideológicos. Acolheu-os no lugar, dobrou o soldo deles, e convidou-os a descer à cave do palácio para provar o seu vinho.

Os revolucionários acharam-no de tal forma bondoso, que abandonaram seu objetivo demolidor.

Quarto de dormir.
Quarto de dormir.
Roquetaillade sobreviveu às revoluções da história. Mas no século XIX viria a mais insidiosa dela: a Revolução da modernidade.

O castelo não era “moderno”, não afinava com as chaminés soltando fumaça da Revolução Industrial, era incompatível com a locomotiva, com o carro, com as linhas férreas e os viadutos.

Ficou abandonado e já no início do século XIX se encontrava em mau estado.

Mas com o renascer do interesse da população pelo “sonho medieval”, Roquetaillade tornou-se um dos primeiros edifícios medievais do Sudoeste a beneficiar-se da proteção do governo.

Por volta de 1850, a família Mauvezin, que o possuía, recorreu ao mais célebre arquiteto francês, Viollet-le-Duc, responsável pelo governo da restauração dos grandes prédios medievais.

Ajudado por Duthoit, um de seus alunos, ele passou cerca de 20 anos cuidando do restauro do palácio.

Ele se aplicou sobretudo na decoração do interior e do mobiliário.

A decoração de Roquetaillade, que se pode ver atualmente, é única na França e está classificada como monumento histórico.

O parque do castelo compreende os vestígios do recinto medieval com a barbacã, o riacho de Pesquey e as suas ribas, além de um chalé novecentista e o pombal do Crampet.


Vídeo: Roquetaillade : 700 anos de história de uma família










(Fonte: Wikipedia, Castelo de Roquetaillade)



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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Admirar Saumur é entrar na alma de São Luís

Agulha de Saumur (épis de faîtage em francês)
foi criada com base na iluminura
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: Da terra ao Céu: do Saumur da pedra ao Saumur do sonho



O castelo de Saumur não é um sonho de toxicômanos. O castelo tem uma harmonia e um equilíbrio que, ao mesmo tempo em que parece flutuar no ar, não dá a impressão de que vai cair.

Por causa disso ele se divide em duas partes bem nítidas: a parte superior ligeira, leve, graciosa; e a parte inferior, fortíssima.

O castelo tem como que garras postas no chão; são subterrâneos, masmorras, cofres, arquivos, salas de armas na parte fortíssima. Esta segura o castelo e o equilibra no que ele poderia ter de demais aéreo.

Se o castelo fosse todo como a parte de baixo, seria um pesadelo.

Se fosse tudo como é em cima, seria uma brincadeira.

Mas ele não é nem um pesadelo, nem uma brincadeira. É uma obra-prima de equilíbrio de espírito, em que cada coisa tem seu papel.

O que toca na terra é sólido, sério, vigoroso, guerreiro. São muralhas de uma fortaleza. De quando em quando há uma seteira. Não há janela.

Há uma rampa de acesso com uma ponte levadiça e mais muralhas, de maneira que se alguém quiser entrar burlando esse esquema, encontra muralhas dentadas de onde podem ser jogadas setas, água em ebulição, óleo, pedras.

A conjunção na elevação do nobre e do popular
A ponte levadiça passa por cima de um abismo que é preciso atravessar para quem quiser tentar um assalto.

Assim o castelo é prudentíssimo nas realidades terrenas, mas é santamente idealista nas coisas superiores.

O burrico que vai descendo mostra o gosto medieval pela vida quotidiana na sua plenitude. Inclui seus aspectos mais elevados e os mais prosaicos também.

Porém, o pragmático se ordena em função do elevado, e o sombrio e o prosaico se regeneram; ficam delicados e a gente sorri, vendo o burrico descer.

Se há um animal que não tem graça é um burrico. Mas aqui ele fica engraçadinho como num presépio de Natal.

Uma camponesa leva um peso qualquer na cabeça. A cor do vestido dela é clara, seu passo é leve. Ela se sente bem. É o equilíbrio que formam os opostos não contraditórios juntando-se uns aos outros.

Exemplo de castelos que poderiam ter existido
Exemplo de castelos que poderiam ter existido
De um lado o castelo termina abruptamente. Do outro se prolonga. Há outras construções: um forno de padaria com uma chaminé, um silo para guardar trigo, tudo abrigado por muralhas.

Todas as realidades da vida estão consideradas com espírito católico. O que domina tudo é o desejo do Céu, dos bens do espírito, e as partes materiais existem para atender aos bens do corpo.

É a magnífica e harmônica visão global do universo que a Igreja Católica nos dá.

Há um convívio da aristocracia com a plebe, do gênero humano com o reino animal e o vegetal.

Tudo tão bem posto que lembra o Gênesis, onde diz que após criar o mundo Deus repousou, considerando que cada coisa era boa e o conjunto era melhor ainda.

Na iluminura pode-se dizer que cada parte é boa, mas o melhor é o conjunto todo, inclusive o burrinho.

Se não foi construído pelo rei São Luís IX, é histórico que foi usado por ele.

São Luís era o tipo de rei capaz de inspirar um arquiteto e mandá-lo construir esse castelo. A santa alma de São Luís está inteira dentro da iluminura.

São Luís ofereceu um histórico banquete em Saumur
São Luís ofereceu um histórico banquete em Saumur
Nenhuma reprodução dá adequadamente o olhar de São Luís. E sem olhar, nenhuma face é face.

O centro psicológico da face são os olhos.

Em Saumur, parece que nós sentimos o olhar de São Luís.

Essa iluminura descreve mais sobre São Luís do que muitas pinturas que tentam representar sua face.

No século XIX, o rei Luís II, da Baviera teve o desejo de realizar algo assim nos castelos que ele construiu, como o famoso Neuschwanstein.

Mas não conseguiu, seus arquitetos fizeram coisas, mas quão inferiores!

Saumur é único. É o castelo medieval por excelência, a imagem plena da Idade Média!

Assim como a Suma Teológica dá inteiramente a ideia da teologia medieval, Saumur dá ideia do espírito medieval, ou seja, do melhor brilho do espírito católico.

Comparemos mentalmente esse castelo com algum prédio moderno. Que graça tem o arranha-céu de Manhattan em comparação com Saumur?


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 27.11.1970 não revistos pelo autor).





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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Da terra ao Céu:
do Saumur da pedra ao Saumur do sonho

Um belo castelo inspirou um sonho.
Hoje os restauradores querem consertar Saumur segundo o sonho
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O castelo Saumur como está representado nas “Très Riches Heures du duc de Berry” nunca existiu como é representado na maravilhosa iluminura.

O castelo histórico, embora muito belo, foi abandonado nos tempos modernos, período que medeia entre a Idade Média e a Revolução Francesa.

Pode-se entrementes indagar se a iluminura das “Très Riches Heures du duc de Berry” é “autêntica”, ou seja, se ela reproduz o que foi o castelo.

E aqui o julgamento deve ser cuidadoso. Houve o castelo de pedra historicamente existente e houve também na alma dos homens um sonho construído a partir desse mesmo castelo.

Saumur foi um dos mais belos castelos da Idade Média e um daqueles em que melhor se exprimiu o sonho para o qual tendia a Idade Média.

O Saumur de pedra é um exemplo de “castelo típico” com seus muros, torres, ameias, ponte levadiça, etc. E também é um exemplo do sonho de “castelo arquetípico”, quer dizer, um voo da alma humana que toma uma realidade material como pista de decolagem.

Pode-se perguntar do que vale algo que nunca existiu, como esse “castelo arquetípico”? Porque – pode alguém objetar – ele não muda nada na vida concreta dos homens.

A agulha do Mont Saint-Michel foi irrealizável na Idade Média.
No século XIX foi feita segundo o sonho de uma iluminura.
Pode-se dar uma resposta filosófica. Mas há também uma resposta que está sendo dada em nossos dias, e em termos também muito concretos.

Porque Saumur está sendo restaurado de acordo com o “castelo arquetípico”.

Não é o primeiro caso.

A célebre agulha do Mont Saint-Michel, coroada por uma artística estátua do Arcanjo folheada a ouro, também nasceu numa iluminura.

Ela não existiu na Idade Média.

No século XIX, quando a tecnologia começou a permitir a montagem da colossal agulha com a estátua proporcionada de São Miguel, na hora da restauração, o genial Viollet-le-Duc, responsável pelas obras, mandou fazer a agulha dos sonhos.

Foi uma tempestade polêmica: restaurar uma coisa que nunca existiu?

Viollet-le-Duc não arredou o pé e hoje milhões e milhões de pessoas vão visitar a “merveille” presidida pelo Arcanjo de ouro, a uma grande altitude.

Na iluminura, Saumur dá uma impressão de tanta majestade, ao mesmo tempo de tanta graça, de tanta leveza, que se tem a impressão de estar diante de um castelo de conto de fadas, e não de uma construção destinada também ao uso militar!

A majestade do castelo se expressa na sua grande altura. Habitualmente os castelos não têm essa elevação. Os alicerces do castelo habitualmente são disfarçados por muralhas e enterrados no chão.

O Saumur do sonho que aponta ao Céu.
O Saumur do sonho que aponta ao Céu.
Mas o castelo parece não ter alicerces e estar colocado como um enfeite diretamente sobre o solo.

Três torres, toda espécie de chaminés e de torreõezinhos se levantam para o céu. As torres mais altas competem entre si para ver qual se levanta mais e arrastam atrás de si todas as chaminés e os torreõezinhos.

Dir-se-ia que de um momento para outro, o castelo levanta voo, de tal maneira ele é ligeiro. Um certo desejo aeronáutico está presente no castelo, mas sem os prosaísmos do avião de hoje.

O Saumur é delicado em todas as coisas. No alto das torres há flechas de metal e, no topo delas, flores-de-lis douradas.

Num dia bonito de sol, a gente vê rebrilhar todos esses ouros, e se faz uma ideia de coisa angélica, de Céu realizado na Terra, que é uma verdadeira audácia!

O Saumur de pedra está sendo restaurado
para parecer com o sonho
E é essa fantasia que está sendo criada materialmente, ou recriada no momento presente.

O castelo não tem uma linha fixa. Tudo se faz em curvas, com uma espécie de irregularidade.

Ele é feito de mil pontas.

Aqui, dois torreõezinhos com pontas para cima, lá, janelas góticas com agulhas de um lado e do outro.

No topo, florões para cima. Uma torre culmina numa espécie de terraço com ameias.

O teto com cores de ardósia vai para cima, acompanhado pelas chaminés.

O castelo fala de uma saudade do Céu, de uma vontade de entrar dentro do azul, de alhear-se das coisas da terra e de se perder numa contemplação elevadíssima.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 27.11.1970 não revistos pelo autor).


continua no próximo post: Admirar Saumur e entrar no olhar de São Luiz



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